Há cerca de três meses um programa de podcast tem promovido uma série de debates sobre as comunidades pesqueiras, os problemas por elas enfrentados, mas
também tem revelado o seu modo de vida, numa conversa fácil, acessível e que tem atraído ouvintes fieis. Produzido pelo Núcleo de Estudos Humanidades, Mares e Rios (Nuhumar), vinculado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da UFPE, o “Vozes da Pesca artesanal”, como é chamado o programa, está na sua oitava edição e já debateu os mais variados temas. Os impactos da pandemia e do petróleo nas comunidades pesqueiras, carpinteiros navais, juventude pesqueira, entre outros temas, já entraram na pauta. O programa tem o apoio da Facepe, CNPq, Rede UFPE SOS Mar e do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP).
O objetivo da atração é “ser um espaço de valorização e divulgação da vivência, do modo de vida e das principais questões socioculturais, políticas, econômicas e ambientais que envolvem os pescadores e pescadoras artesanais, com base em seus depoimentos e a partir de uma construção coletiva que conta com a participação do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), das comunidades pesqueiras e dos docentes e discentes ligados ao Nuhumar/UFPE”, explica o sociólogo e professor Dr. da UFPE, idealizador do programa, Cristiano Ramalho. O retorno entusiasmado por parte de pescadores e pescadoras artesanais, de pesquisadores e dos ouvintes em geral mostra que o objetivo tem sido alcançado.
Confira a entrevista do Professor Dr. Cristiano Ramalho sobre o programa logo abaixo!
CPP – De onde surgiu a ideia do programa “Vozes da Pesca Artesanal”?
Cristiano Ramalho – Percebemos que, além da publicação de artigos e livros e organização de eventos, era necessário utilizar outros meios, espaços – nas mídias sociais, principalmente – que fossem capazes de dar visibilidade a importância das comunidades pesqueiras em Pernambuco, no Brasil; e que isso fosse feito em parceria com elas, com os movimentos sociais da pesca, as comunidades pesqueiras, no intuito de firmar e afirmar um compromisso da Universidade com os setores populares, embora saibamos que é necessário muito mais.
O programa “Vozes da Pesca Artesanal” é, sem dúvida, uma das formas que o Núcleo de Estudos Humanidades, Mares e Rios (Nuhumar) – vinculado ao Laboratório de Estudos Rurais (Lae-Rural) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – encontrou para disputar narrativas sobre o mundo da pesca artesanal, tendo os pescadores e pescadoras como sujeitos que relatam suas experiências de vida, de trabalho, seu cotidiano para dentro e fora da Universidade. É também uma maneira de desvelar as condições de existência das sociedades pesqueiras, suas demandas, importâncias, dificuldades, lutas, modos de vida e possibilitar, por meio disso, que a academia e uma nova geração de acadêmic@s possam assumir compromissos teóricos e práticos com os povos das águas.
É, ademais, resultado de ações combinadas entre pesquisa (sobre o mundo do trabalho pesqueiro apoiadas pelo CNPq e a Facepe), ensino (a exemplo das disciplinas Sociologia da Pesca, Sociologia do Trabalho, Sociologia Rural e Meio Ambiente & Sociedade) e extensão, que desenvolvemos através do Departamento de Sociologia (DS), do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) e do Nuhumar na UFPE e que conta – muita dessas atividades – com a parceria do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP).
A ideia é que o saber-fazer científico esteja em diálogo permanente com o saber-fazer dos homens e mulheres das águas, formando uma sólida aliança, parceria, compromisso; e é isso que desejamos com o “Vozes da Pesca Artesanal”.
CPP – Qual o objetivo do programa?
CR – Ser um espaço de valorização e divulgação da vivência, do modo de vida e das principais questões socioculturais, políticas, econômicas e ambientais que envolvem os pescadores e pescadoras artesanais, com base em seus depoimentos e a partir de uma construção coletiva que conta com a participação do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), das comunidades pesqueiras e dos docentes e discentes ligados ao Nuhumar/UFPE.
A ideia também é de: (a) Possibilitar o enriquecimento da formação discente em seus aspectos teóricos, metodológicos e práticas, articulando-os à reafirmação e materialização dos compromissos éticos e solidários da Universidade Pública brasileira com os setores populares; (b) Tornar-se um mecanismo através do qual possa estabelecer-se a inter-relação da UFPE com os movimentos sociais da pesca e as comunidades pesqueiras artesanais, com vistas a uma atuação transformadora ao trazer à tona a realidade vivida pelos homens e mulheres das águas; (c) Promover o encontro, debate e trocas de saberes (ensino, pesquisa e extensão) entre discentes de várias áreas do conhecimento (ciências sociais, ambientais, comunicação, etc.), e docentes – do DS – e dos mesmos com os sujeitos sociais da pesca artesanal; (d) Estimular a possibilidade de realização de estudos e fortalecer o saber-fazer extensão na UFPE junto ao universo dos pescadores e pescadoras artesanais.
CPP – Quem é responsável por realizar o programa, pensar pautas ou fazer a edição?
CR – O “Vozes da Pesca Artesanal” é realizado por docentes e discentes, da graduação (ciências sociais, ciências ambientais, comunicação) e pós-graduação (sociologia), que integram o Núcleo de Estudos Humanidades, Mares e Rios (Nuhumar) da UFPE, contando com a coordenação do Prof. Dr. Cristiano Ramalho (Nuhumar/DS/PPGS/UFPE) e do Prof. Dr. Gilson Antunes (Nuhumar/DS/UFPE) e a parceria da pesquisadora Dra. Andreia Santos (Facepe/UFPE). O roteiro, embora possa ficar sob a responsabilidade de alguns que são escolhidos a partir de interesses temáticos, é sempre discutido com tod@s do Nuhumar. A edição e a locução são realizadas pela bolsista do Nuhumar Lucyanna Melo (aluna do curso de comunicação/UFPE).
O interessante e enriquecedor é que as pautas são trabalhadas coletivamente, onde participam @s integrantes do Nuhumar e do CPP, que muita vezes sugere temas. Também consultamos pescadores e pescadoras não só para propor questões que devem ser abordadas no Vozes da Pesca Artesanal, como para avaliarem os resultados dos programas.
CPP – Qual a periodicidade do programa?
CR – O Vozes da Pesca Artesanal é feito quinzenalmente para ser divulgado em Podcast, via whatsapp (meio que é mais fácil de ser difundido nas comunidades pesqueiras), instagram e na Rádio Universitária FM da UFPE (99.9), especialmente por meio do programa “O Redator Comunitário”, do competente e comprometido radialista Roberto Sousa . O fundamental é alcançar as comunidades pesqueiras, alunos(as) e docentes da UFPE e o público em geral, inclusive gestores públicos.
CPP – Como tem sido o retorno dos Pescadores e de outros grupos em relação ao programa?
CR – O retorno é o melhor possível. Estamos no oitavo programa e, apenas no Podcast, já tivemos cerca de 1.500 acessos sem falar do que circula através no whatsapp e é transmitido pela Rádio Universitária, onde não temos condições de quantificar o número de ouvintes. Recebemos retornos de pesquisadoras(es) e pescadoras(es) do Brasil, de norte a sul, até mesmo de pessoas e grupos que desconheciam a riqueza do universo da pesca e que começam a entrar em contato com ele a partir do Vozes da Pesca Artesanal. Recentemente, um pescador de Santa Catarina, que tem meu contato telefônico, gravou um áudio e me enviou por whatsapp, quando estava pescando, para dizer que tinha acabado de escutar, por seu celular, um dos programas do “Vozes da Pesca Artesanal” e estava feliz por se sentir representado.
CPP – Até quando vocês seguirão com a iniciativa?
CR – Até quando as desigualdades que cercam o universo da pesca artesanal persistirem. O “Vozes da Pesca Artesanal” é uma forma, também, de ajudar a combater essas desigualdades, de enfrentar o racismo e a injustiça socioambiental e as diversas formas de exclusão e violências que as pescadoras e pescadores estão submetidos historicamente, inclusive de expulsão de seus ancestrais territórios de trabalho e morada, de vida. Acreditamos que podemos – sempre em parceria com as comunidades pesqueiras, seus movimentos e o CPP – produzir ações de denúncias e de valorização da imensa e histórica contribuição ofertada pelos povos das águas ao nosso país, ora em termos econômicos e de soberania alimentar, ora em termos culturais, de trabalho e sociabilidade, ora na esfera do sofisticado conhecimento sobre a natureza que possuem. Tudo isso precisa ser reconhecido e valorizado pela sociedade, pela academia, pelas políticas públicas.
Para acessar o programa “Vozes da Pesca Artesanal”, clique aqui!